Sendo ‘un empleado’ e se reconhecendo profissionalmente em outro país.

Este ainda não é um post com passo a passo de processos e procedimentos burocráticos sobre como trabalhar legalmente na Espanha, mas tenho certeza que você vai me agradecer depois que estiver sentadinho no seu novo ‘puesto de trabajo’.

O início deste post seria naquele momento depois de superadas muitas dificuldades internas e externas quando finalmente você consegue seu contrato de trabalho no seu novo país de residência. E o que acontece? Aquela sensação boa de “P%r*@ brother, consegui!”, mas também sessões intensas de choques culturais que te deixam cambaleando alguns dias à cada evento.

Acho melhor eu reiniciar o post porque com esse primeiro parágrafo to desanimando até os mais otimistas né, mas gente, por mais romântica que eu seja ao detalhar as delícias de ser expatriada, tem muita dor também, e eu não gosto de iludir ninguém. Sei que o que vou comentar vai ser bem polêmico e gerar todo tipo de reações, mas como também acredito que a gente aprende muito na dor e não só no amor, prefiro relatar minhas impressões sobre o ambiente profissional em Madrid que eu venho experimentando e você fica com sua liberdade de tirar suas conclusões depois de viver situação semelhante. E vale deixar sua opinião nos comentários aí no final, assim aprendo com você e você aprende comigo, combinado?

Ok que nem tudo são espinhos e receber seus €urinhos na conta no final do mês é uma sensação duas vezes melhor do que a que estamos acostumados no Brasil, mesmo que apesar da supervalorização desta moeda frente ao Real, muitas vezes essa quantia é metade do que você ganharia na sua terra.

Isso porque aqui, caso sua profissão não seja escassa de mão de obra qualificada, como T.I. por exemplo, você vai entrar no mercado brigando com profissionais tão qualificados ou até mesmo menos qualificados que você, porém espanhóis, então a briga não será de igual para igual mesmo que seu inglês seja fluente e você traga debaixo do braço um canudo da FGV (¿Quien?), são eles que levarão a vaga. Então ponto um: Calce a sandália da humildade e abra seu coração para aceitar ofertas que podem parecer inferiores ao nível de vaga que você buscaria no Brasil. Se você procurava coordenação, prepare-se para voltar ao status de analista ˜e quizá junior ˜. Mas sem drama gente porque compensa, confiem em mim. Em breve comento sobre custo de vida e etc e vocês vão me entender.

Apesar deste quesito desvalorização, digo que essa sensação de ganhar seus eurinhos para chamar de seus é duplamente melhor porque aqui para chegar nesse ponto de empregado, legalizado, contratado, 99,9% dos nossos conterrâneos (me incluindo) passaram por poucas e boas. Ou seja, a sensação de merecimento e de dever ‘vencido’ mais que cumprido é triplicada.

Voltando às diferenças organizacionais entre culturas, o primeiro impacto que tive foi: por mais que você esteja trabalhando em uma multinacional com atividades em mais de 10 países, o volume de negócios (me refiro ao bruto, não financeiro) é proporcional ao tamanho da Espanha, e com isso meu sentimento é que, por maiores que sejam as empresas,  o pensamento é pequeno. Não pequeno no sentido pejorativo da palavra, mas menor do que costumamos pensar no Brasil, onde uma nação tem tamanho de um continente e logo tudo que pensamos é continental. Acho que isso contrasta um pouco também com nossa urgência econômica de país menos favorecido que somos. Daqui de Madrid que é onde a maioria das maiores empresas estão sediadas, para se deslocar entre as filiais nacionais, se você não for agraciado com um vôo de 1 horinha poderá chegar no escritório mais distante em 6h de estrada (e com asfalto ‘dubom’, só para constar). Estamos falando de um trajeto Rio x SP né? Ou seja a urgência da otimização do custo, tempo, prazo, muda. A fome aqui é diferente da fome daí.

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Zé Victor, personagem da novela “Do outro lado do Paraíso” que se gabava por ser eleito chefe do garimpo. Imagem G1

Fechando esse tópico emendo em outro que parece um pouco consequência do primeiro: Esqueça a fome capitalista. No Brasil somos a geração Coca-cola, alimentada de McDonalds, consumindo mais Hollywood que novela… Costumo dizer que fomos colônia de Portugal, mas nossa colonização moderna foi os Estados Unidos. Já aqui é velho mundo, núcleo de países soberanamente feitores da história. Especialmente falando da Espanha, aqui é a terra da Siesta, destino de férias da Europa toda, o litoral veranego de todo um continente, lugar de fazer o seu suficientemente para cochilar de tarde, fechar seu negócio familiar durante todo o verão e sair para tomar suas cañas no pueblo para aproveitar a vida, trabalhando para viver e não vivendo para trabalhar.

ATENÇAO: Não estou chamando espanhol de preguiçoso muito menos de relaxado heim, pelo amor da virgem! O que estou comparando é o comportamento e o posicionamento cultural/estrutural de toda uma sociedade diante do trabalho. Sem entrar no mérito de ser primeiro mundo, com um mínimo de qualidade de vida que a gente somente sonha no Brasil, etc, etc, etc… Resumindo aqui ninguém mata cachorro à grito simplesmente porque não precisa.

Posto isto, aquela nossa urgência em ser bem sucedido, (aqui seu conceito de sucesso pessoal vai mudar), mostrar serviço, virar chefe, morar no lugar da moda, ter o carro da moda, o telefone da moda, ganhar mais para ter mais, se exibir mais para ser aceito mais, mais, mais, e tudo sempre mais não-e-xis-te-por-a-qui. Por um lado isso é bom, porque a gente aprende a viver melhor e com menos também. Aprende a se estressar menos, a se cobrar menos e a se desgastar menos por uma causa que acaba e perde sentido na hora da baixa da sua carteira de trabalho ao despedir da empresa saindo do depto de Recursos humanos. Isso me lembra meu último emprego no Brasil  que foi ótimo, contribuiu muito para quem eu sou hoje e para como vejo as coisas aqui, mas não nego que foi tóxico. Saí dele em pleno surto, esgotada emocionalmente, profissionalmente e mentalmente, suando para conseguir um posto de coordenação (me prometido na entrevista de seleção, BTW), e por brigar por uma causa que meus valores éticos achavam corretos. Sabe o que ganhei com isso? Nada. Saí me sentindo nula profissionalmente, questionando toda minha carreira de 10 anos e me vendo forçada a dar uma guinada na minha vida, embarcando para buscar outros horizontes. Hoje, quase 3 anos depois dessa ‘libertação’, trabalho em um ambiente que me permite aproveitar meu final de semana sem grandes cobranças mentais que não o autoesforço de desacelerar.

Finalizando este ponto, chego no fato que me inspirou a começar a escrever este post dentro do ônibus na volta para casa mesmo. Meu dia hoje começou ótimo, contente, com pequenas boas coisinhas que dão aquele empurrãozinho motivacional na sua manhã e te levam contentinha até o final da tarde sabe? Então. No final do dia tive uma brilhante (?) ideia de propor à uma companheira de outro setor de juntas fazermos um relatório atualizado a cada dois dias para a equipe de vendas sobre a ocupação de um dos produtos da empresa que é sazonal e tem datas concretas para venda durante o verão. Pois bem, eu esperando um: “- Legal Rafa! Sim, eu gero esse relatório no sistema rapidinho, te mando e você modela a informação como preferir para a galera do comercial” (sim, a proposta era assim de simples). No lugar desta resposta que eu achava óbvia, tomei na cara um balde gelado de água fria escutando mil empecilhos através de uma postura resistente que nestes momentos te fazem pensar que você não está se expressando bem no idioma enquanto tá ouvindo tanto absurdo, mas que logo te convence que era pura falta de vontade do coleguinha mesmo. Eu desisti da brilhante ideia quando soou a seguinte música para meus ouvidos: ” – Se sua chefe não te passa essa informação, é porque ela não quer.”

(Pausa para engolir a declaração.)

Me despedi humildemente com um “- Vale, sin problemas, era solo una idea que se me ocurrió.” e traguei a frustração de ter que lidar com o pensamento da objetividade espanhola no meu dia atrás do outro. Leia-se: “Se não tem relatório e se eu não avisei que o produto esgotou, continuem vendendo sem mais complicações. Eu faço o meu, vocês fazem o de vocês e seguimos assim.” Punto y pelotas, como se diz por aqui.

Meu ponto era querer melhorar, contribuir, otimizar, fazer vender mais, melhorar a comunicação interna, informar, sabe? Mas isso aqui não vale, e eu interpretei mais essa mensagem, como tantas outras passagens vividas aqui como a filosofia “do feijão com arroz” – o básico que mata a fome. Afinal, a empresa chegou no que é hoje até aqui sem minhas brilhantes ideias não é mesmo? É o famoso carioquês: Faça o seu quietinho para dar tudo certinho.

Então amigos, se você venceu todos os obstáculos burocráticos, lutou nas entrevistas, digeriu vários nãos e finalmente assinou seu primeiro contrato de trabalho espanhol, prepare-se: Você vai reaprender a trabalhar, se ajustar na roupa humilde do seu novo cargo e de bônus vai passar de fase no jogo de lidar com suas frustrações sendo um expatriado.

Lado neutro disso tudo: No Brasil a gente também tem que engolir cada uma que não são duas, mas valem por 3, a diferença aqui é que o diferente/intruso é você.

O lado bom disso é que você não deixa de estar crescendo, afinal, vê mais quem vê de mais de um ângulo. E eu não sei vocês, mas prefiro mil vezes viver esta experiência do que estar no mesmo cargo, há mil anos, na cadeira mais confortável da empresa conquistada pela resistência à falta de desafios, e agarrada com unhas e dentes em um título de cargo… Enfim, sem julgamentos, cada um com o conforto que escolhe e acho que o meu conforto é uma cadeira dura e sem estofado rsrsrs.

Com uma última filosofada e para fechar,  tenho uma amiga também brasileira que mora em Londres (e passa por poucas muito mais ‘boas’ que as minhas) que desenvolveu a filosofia do ‘Embrace’, que significaria ‘abrace’ isso e se acostume. Essa questão das frustrações e diversidade empresarial de um novo país é um dos males necessários e valiosos, embora intransponíveis nessa delícia que é ser um brasileño em terras espanholitas. E se você não conseguir alcançar o estado do tal ‘embrace’, talvez seja melhor considerar voltar pro turbilhão continental do novo mundo, pois o velho mundo é assim desde que o mundo é mundo…

E por fim, ¡Ánimo chicos! porque tem vida mais barata mas não presta não, vice?

😜

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