Vibe de Madrid: O que pode acontecer em uma terrazita? Sobre copas, facetime e solidão

Ainda vou me dedicar para escrever sobre as Terrazas de Madrid, modalidade de bar que me encantou desde o primeiro momento. Mas para resumir e te contextualizar, terraza é qualquer área ao ar livre de um bar ou restaurante, seja em um terraço ou na calçada mesmo.

Ontem foi um desses sábados solitários de planos individuais. Saí para comer um bom rodízio brasileiro (Qual melhor companhia que a boa comida?), e quando já estava a ponto de explodir, decidi que sentaria em uma terraza para esperar a digestão antes de ir para casa tomando um vinho.

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Alimentando a alma e o coração com gosto de casa – Churrascaria Vila Brasil em Madrid

No caminho, uma amiga muito querida me ligou pois também estava sozinha em sua casa no Rio de Janeiro, e justo por estar calçando esse meu sapatinho de princesa Disney expatriada, ela lembrou de mim e me ligou para me fazer cia e ter também companhia.

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Terraceo com minha amiga no Leblon: Olhe o fone e veja ela.

Agora te conto o que pode acontecer em uma Terraza de Madrid. Logo que sentei, com meus fones no ouvido falando em bom brasileiro (Muitos espanhóis se referem ao nosso português como brasileiro, pois segundo eles, um não tem nada a ver com o outro…), uma mesa com dois senhores e uma mulher acenaram para mim me chamando. Eu olhei, e eles me pediram para saludá-los quando saísse da minha ligação. Eu não saí da ligação, foi a bateria que acabou. E o senhor desacompanhado se aproximou me contando que eles queriam conversar comigo pois me ouviram falando ‘brasileño’ e acharam uma grande coincidência pois eles tinham acabado de voltar do Rio, onde foram para o casamento do filho de um deles com uma brasileira.

Nesse momento me lembrei de uma outra amiga que já viveu aqui em Madrid por quase 4 anos me dizendo: Rafa, sempre que você estiver de bobeira, converse com as pessoas de idade. Eles falam um espanhol perfeito, rico, e será otimo para você praticar o idioma. Com isso em mente, continuei na conversa. Muito cavalheiros e educados que são, me ‘invitaram a una copa’ (Invitar é convidar mas com a mensagem clara que você não vai pagar). Muito sem graça eu aceitei, e assim estava começando uma conversa que eu categorizaria como não chore de barriga cheia uma lição de vida. Meu novo amigo tinha seguramente mais de 60 anos e vitalidade maior não conheço. Advogado de carreira, segue na ativa e não deixa de desfrutar nada da vida. Por vários momentos me falou de um problema nos joelhos que conquistou não por sobre peso ou um trabalho duro (como costumam ser os problemas de joelho que conheço), mas porque estava andando de bicicleta (entenderam? bi.ci.cle.ta) e caiu, machucando um dos joelhos e 3 costelas. Aliás, isso é um dos choques culturais que tive quando me inseri nessa sociedade… A liberdade de se fazer o ritmo de vida que mais lhe agrade em países de primeiro mundo. O trabalho suficiente para ganhar o dinheiro que se quer sem sacrificar os momentos com a família e amigos. Enfim, realidades de primeiro mundo, mesmo que de um país em crise como a Espanha é considerada. O resultado são pessoas ativas por mais anos ao longo da vida, enquanto infelizmente a maioria dos brasileiros chegam na aposentadoria com muita luta, muito cansaço e claro muitos problemas de saúde decorrentes de uma vida inteiramente dedicada à sobrevivência da família  ao trabalho. Sobre a qualidade de vida dos mais velhos na Espanha, ainda tenho mais assunto, e que escreverei em breve.

Voltando à lição de vida que meu novo amigo me deu. Não entramos em muitos detalhes de vida, mas pelo pouco que me contou suponho que ele seja viúvo, já com netos, filhos criados, uma carreira bem sucedida com seu escritório de advocacia, e uma vida inteira a ser preenchida. É cliente conhecido por todos os bares do entorno que estávamos, pois de fato são seus vizinhos. E justo no dia que a solidão me deu as mãos e me convidou para almoçar, eu encontro esse senhor que me dá de presente a seguinte jóia:

“A vida não é dura, ela é muito dura. Mas eu não me permito ir para a cama sem antes ter sorrido por 3 horas do meu dia. Se eu chegar em casa e isso não tiver acontecido, eu vou para a rua buscar essas horas de alegria.” 

Minha cabeça rebobinou, viajou, voou. Quantas pessoas mais jovens, com uma vida cheia de oportunidades pela frente, se fecham para o viver e optam por lamentos, dramas e desculpas para si mesmo para não viver um dia melhor? E quantos adultos com tantas realizações já conquistadas se esquecem de desfrutar tudo de maravilhoso que já tem, e também preferem se afundar em lamentos e dramas… Todo mundo tem problemas, angústias, preocupações e dias maus, mas como emendou mais ou menos meu amigo em outra cápsula de sabedoria:

“Somos nós que decidimos buscar saídas para uma vida mais leve. Por si só ela não é.”

Eu olhei a vida dele e percebi quão esmagadora e violenta deve ser a solidão dele. A minha é situacional, parte de uma escolha que eu fiz. Além disso, com a sorte que tenho, sempre tem alguém lembrando da minha solidão e me ligando para roubar o lugar dela na minha mesa. Já a dele é um fato, uma consequência de uma vida já vivida. Não há muitos remédios para a solidão do meu amigo, mas nem por isso ele abre mão de ser feliz, se sentir jovem e por algumas poucas horas, sentir a vida correr nas suas veias e acima de tudo, dividir essa filosofia linda com uma completa desconhecida.

Sigo me perguntando: Como não amar as terrazas de Madrid?

Post dedicado a todos que se entregam às más circunstancias da vida, e perdem as boas terrazas.

 

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